A palavra réveillon carrega em sua etimologia francesa o verbo réveiller: despertar. No Brasil, esse despertar não ocorre no silêncio, mas no estrondo das ondas e no brilho ruidoso da pólvora. O maior espetáculo de passagem de ano do mundo encontra seu epicentro na Praia de Copacabana, onde milhões de pessoas se reúnem em um ritual que funde o sagrado e o profano, o histórico e o místico, sob o manto coletivo das roupas brancas. Este costume, hoje onipresente, nasceu timidamente na década de 1970 com os praticantes do Candomblé, que ocupavam a areia para saudar Iemanjá. Para as religiões de matriz afro-brasileira, o branco não é apenas um desejo de paz, mas o símbolo do luto pela morte que permite o renascimento e a continuidade da vida.
À beira-mar, a “Rainha das Águas” é a protagonista de um “ritual comestível” e espiritual desenhado para manipular o destino. Antes da meia-noite, devotos e simpatizantes pedem licença à Rainha do Mar para entregar oferendas que incluem alfazema, perfumes e flores — preferencialmente sem o caule, para que flutuem de forma biodegradável. O ato de estourar uma champanhe branca, lavando as mãos com as ondas, e pular sete ondas fazendo pedidos, fortalece a conexão com as forças da natureza e com a ancestralidade. É um momento de oração onde o pensamento e o coração atuam juntos para purificar e renovar.
A gastronomia da virada é regida pela “Lei do Movimento”, uma estratégia mística para garantir prosperidade. A regra de ouro é rigorosa: evitam-se aves como frango e peru, pois, ao ciscarem para trás, simbolizam o retrocesso. O prato principal deve ser o porco, que fuça para frente, ou peixes, que nadam em direção ao futuro. À meia-noite, a coreografia da sorte exige que o primeiro bocado seja de lentilha, o grão que evoca moedas, acompanhado por um brinde com espumante, cujas bolhas ascendentes simbolizam a ascensão na vida. Enquanto sete sementes de romã são guardadas na carteira para atrair solidez financeira, doze uvas são consumidas para garantir doçura em cada mês do novo ciclo. Nas mesas, que funcionam como altares de luz e abundância, o regionalismo brasileiro se manifesta: do ouro do azeite de dendê no Nordeste ao vigor do churrasco no Sul, passando pelo sabor da floresta com o tacacá e a maniçoba no Norte.
A tradição pirotécnica que ilumina o céu carioca foi idealizada, em 1978, por Mario, da antiga churrascaria By Marius, no Leme, e posteriormente glamourizada por Ricardo Amaral para entreter o público do Golden Room do Copacabana Palace no início dos anos 80. Naquela época, o Hotel Meridien criava sua icônica cascata de fogos que descia por 39 andares. Contudo, após um grave acidente na areia na virada de 2000 para 2001, os fogos foram transferidos para balsas no meio do mar, garantindo segurança e permitindo espetáculos cada vez mais sofisticados e sincronizados com trilhas sonoras.
Para gerenciar o fluxo humano e evitar tumultos, a prefeitura instituiu palcos com shows gratuitos a partir de 1993, com Jorge Ben Jor e Tim Maia atraindo multidões históricas. O recorde mundial ainda pertence a Rod Stewart, que em 1994 reuniu 3,5 milhões de almas na areia. Atualmente, a celebração é uma engrenagem gigantesca que movimenta cerca de 650 milhões de dólares na cidade, exigindo 90 dias de preparação e uma equipe de 1,5 mil pessoas para organizar cada detalhe. Ao final, enquanto o sol nasce, restam 360 toneladas de lixo a serem recolhidas e a esperança de um ano que, como o porco da ceia e as ondas de Iemanjá, apenas empurre a vida para frente.