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Patriótico Nacional

O Baile sobre o Vulcão

O mês de novembro de 1889 no Rio de Janeiro não foi apenas um marco no calendário, mas uma sinfonia de contrastes onde o luxo de uma era moribunda dançou, literalmente, sobre o calor de uma revolução iminente. Naquele sábado, dia 9, a Ilha Fiscal iluminou-se como uma joia flutuante na Baía de Guanabara para o que ficaria conhecido como o “Último Baile do Império”. Enquanto as valsas e polcas ecoavam sob o comando de uma banda a bordo do navio chileno Almirante Cochrane, a sociedade imperial entregava-se a um banquete de proporções faraônicas: oitocentos quilos de camarão, quinhentos perus e catorze mil sorvetes foram servidos em mesas em formato de ferradura nos jardins do palacete. A Princesa Isabel, em um vestido de moiré preto listrado com bordados a ouro e um diadema de brilhantes, era a imagem da vivacidade, alheia ao fato de que, a poucos quilômetros dali, no Clube Militar, Benjamin Constant orquestrava a queda do trono.

A ironia do destino manifestou-se em um tropeço. Ao entrar no salão às dez da noite, D. Pedro II, fardado de almirante e já sentindo o peso da idade, desequilibrou-se. Amparado por jornalistas, o imperador tentou salvar a dignidade com uma frase que hoje soa como um vaticínio melancólico: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”. Contudo, o custo daquela ostentação — cerca de 250 contos de réis retirados do Ministério da Viação, equivalentes a 10% do orçamento anual da província — já alimentava as críticas que corroíam as bases do regime. No dia seguinte ao baile, enquanto o pessoal da limpeza recolhia raminhos de corpete e cintas-ligas esquecidas pelos salões, o Rio de Janeiro mergulhava em uma calmaria enganosa, repleta de boatos e verdades sussurradas nos cafés e esquinas da capital.

A sexta-feira, 15 de novembro, amanheceu sob a agitação das tropas. O Marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista por convicção e amigo pessoal do Imperador, encontrava-se doente em sua casa, em frente ao Campo de Santana. Tomado pela dispneia e pressionado por notícias — reais ou forjadas — de ordens de prisão contra si e Benjamin Constant, Deodoro montou a cavalo e dirigiu-se ao Campo da Aclamação. Diante do Ministério da Guerra e sob os olhos de dois mil homens, o marechal não proclamou a República de imediato; sua intenção inicial era apenas a destituição do gabinete do Visconde de Ouro Preto. O gesto heroico imortalizado por Benedito Calixto, com o quepe militar erguido em vez da espada, simboliza um movimento que, naquele momento, transcorreu sem derramamento de sangue e sob a indiferença de populares que assistiam a tudo “bestializados”, acreditando tratar-se de uma simples parada militar.

Enquanto o marechal titubeava sobre a mudança definitiva de regime, foi um civil, o vereador e jornalista abolicionista José do Patrocínio, quem tomou as rédeas da história. Às seis horas da tarde, na Câmara Municipal, Patrocínio redigiu e proclamou formalmente a República perante o povo reunido, abolindo de fato a monarquia. Patrocínio, o “Tigre da Abolição”, que outrora criara a Guarda Negra para defender o trono de Isabel em gratidão pela Lei Áurea, via-se agora como o arquiteto do novo governo, redigindo às pressas a única proclamação ouvida naquele dia. Do outro lado, em Petrópolis, D. Pedro II recebia a notícia com uma resignação abúlica e fatalista, encarando a deposição como sua “aposentadoria” de um cansaço de décadas.

O desfecho foi rápido e discreto, como se a cidade quisesse apagar as marcas imperiais antes que o sol de domingo nascesse. A família imperial recebeu a ordem de deixar o país em vinte e quatro horas e, na calada da noite de 17 de novembro, partiu para o exílio na Europa. Nas ruas, os símbolos da monarquia começaram a ser leiloados: móveis, carruagens e memórias dispersaram-se sob o martelo dos leiloeiros. O Campo de Santana, palco de aclamações imperiais, rebatizava-se Praça da República, enquanto o povo, entre a desilusão e a esperança, tentava decifrar o que significaria aquele novo Brasil que nascia sob o signo do Positivismo, mas com as raízes ainda fincadas nas contradições de sua terra.

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Onde ocorreu o evento histórico conhecido como o "Último Baile do Império"?