Sob o céu de outubro, a cidade de Aparecida, no interior de São Paulo, transmuta-se em um formigueiro humano de esperança e gratidão, onde cada passo ressoa a história de uma devoção que nasceu da lama e do rio. O ar carrega o aroma do tradicional cabrito assado com arroz de forno, temperado com o segredo da vinha de alhos que passa de mães para filhas, enquanto o burburinho das romarias anuncia que a Festa da Padroeira começou. Desde o dia 3 de outubro, o Santuário Nacional e a Basílica Histórica tornam-se o palco de uma novena solene que culmina no grande dia 12, atraindo milhões que buscam o conforto do manto azul da Virgem.
A narrativa desta fé mergulha nas águas profundas de 1717, quando o Conde de Assumar, D. Pedro de Almeida e Portugal, em viagem para a Vila Rica, solicitou aos pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso peixes para um banquete. Após tentativas frustradas no Rio Paraíba do Sul, as redes trouxeram primeiro o corpo de uma imagem de terracota sem cabeça e, logo em seguida, a cabeça da mesma. O milagre da pesca abundante que se seguiu, enchendo os barcos a ponto de quase naufragarem, foi o sinal de que aquela pequena estatueta de 36 centímetros, atribuída ao monge Frei Agostino de Jesus, carregava uma força sobrenatural que mudaria o destino religioso do país.
Caminhar até o Santuário em outubro é um exercício de superação física e espiritual; devotos como Ademilson Flauzino e Jair Souza relatam vencer dores na coluna e trajetos exaustivos pela Via Dutra para agradecer curas de cegueira e problemas de saúde. Nas escadarias da Basílica Velha, no alto do Morro do Monte Carmelo, ou na grandiosidade da Basílica Nova, construída no Morro das Pitas sob a supervisão do arquiteto Benedito Calixto Neto, o tempo parece parar. É um cenário onde a modernidade da infraestrutura, que inclui o “Shoppinho” e o Memorial dos Devotos, convive com o ato ancestral de atravessar de joelhos os 392 metros da Passarela da Fé.
A realeza brasileira também deixou sua marca indelével nesta devoção, quando a Princesa Isabel, em 1868, ajoelhou-se para pedir o milagre da maternidade, prometendo uma coroa igual à sua à Rainha do Céu. Com o nascimento de seu filho Pedro de Alcântara, ela cumpriu a promessa em 1874, doando a coroa de ouro e o manto ricamente bordado que, até hoje, adornam a imagem em celebrações especiais. Esse simbolismo da vestimenta é renovado anualmente através da Cerimônia do Manto, um ritual de sacralização onde a imagem é despida e revestida, transformando o tecido em um objeto de fé que será posteriormente distribuído em pequenas parcelas aos devotos.
A programação cultural de outubro é vibrante, incluindo o passeio ciclístico no dia 4, que parte da Tribuna Dom Aloísio Lorscheider rumo ao Porto Itaguaçu, e a carreata no dia 7. No dia 9, o Festival da Padroeira eleva o tom festivo com shows como o do cantor Daniel, celebrando sob o tema da esperança. Entre as orações da tarde e as novenas solenes presididas por bispos convidados, o fiel encontra tempo para saborear o doce pão-de-ló ou os “beijinhos de amor”, pequenas delícias de açúcar e raspas de limão que adoçam a jornada espiritual. Ao final do dia 12, quando a imagem restaurada por Maria Helena Chartuni após o atentado de 1978 é celebrada como a Rainha e Padroeira do Brasil, o sentimento é de que Aparecida não é apenas um local geográfico, mas o coração pulsante da identidade brasileira.