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Festas e tradições, Religiosidade

Parintins

No coração da maior selva do planeta, quando o calendário marca o último fim de semana de junho, a Ilha Tupinambarana deixa de ser apenas um ponto no mapa do Amazonas para se transformar no epicentro de uma experiência que muitos descrevem como verdadeiramente “arrepiante”. O Festival Folclórico de Parintins não é um Carnaval; é uma monumental ópera a céu aberto, uma epopeia cabocla que pulsa no ritmo das toadas e na paixão de um povo que traz “sangue nos olhos” para defender as cores de suas agremiações. Ao desembarcar na ilha, o visitante é imediatamente tragado por uma dualidade visual absoluta: a cidade divide-se entre o vermelho vibrante do Boi Garantido e o azul profundo do Boi Caprichoso, uma rivalidade tão intensa que molda a arquitetura, o comércio e até o cotidiano dos parintinenses, que chamam o adversário apenas de “contrário”.

Essa disputa centenária mergulha suas raízes em 1913, ano em que ambos os bois foram fundados por promessas religiosas. O Garantido, o “Boi do Povão”, nasceu do clamor de Lindolfo Monteverde a São João Batista, ostentando na testa um coração vermelho sobre sua pelagem branca de pano. Já o Caprichoso, o “Touro Negro” de veludo preto com uma estrela na testa, surgiu do desejo dos irmãos Cid de prosperarem na nova terra sob a benção de São João. No Bumbódromo, estádio construído em formato de cabeça de boi, cerca de 35 mil espectadores assistem anualmente à encenação do Auto do Boi, o drama de Pai Francisco e Mãe Catirina. A lenda conta que Catirina, grávida, sentiu um desejo incontrolável de comer a língua do boi predileto do patrão; para satisfazê-la, Francisco mata o animal, sendo salvo da fúria do amo apenas pela intervenção mágica do Pajé, que ressuscita o boi em meio a rituais xamanísticos e ritos tribais.

A atmosfera nas arquibancadas é um espetáculo à parte, onde a “Galera” desempenha um papel crucial, sendo um dos 21 itens avaliados pelos jurados. Enquanto um boi se apresenta em uma explosão de coreografias e alegorias articuladas que chegam a 25 metros de altura, a torcida adversária deve manter um silêncio absoluto e marmóreo, sob risco de prejudicar sua agremiação. Entre um ato e outro, os aromas da gastronomia parintinense tomam as ruas: o tacacá revigorante, com seu tucupi quente e o jambu que faz tremer a língua; o bodó assado na brasa, peixe favorito da ilha; e o crocante bolinho de piracuí, feito com a farinha de peixe pilar. Essa imersão sensorial é tão profunda que marcas globais, como a Coca-Cola, adaptam secularmente suas cores para o azul em Parintins, respeitando uma tradição onde quem é fiel a uma cor jamais consome o que remete à outra.

Reconhecido desde 2019 como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN, o festival transcende o entretenimento para se firmar como um ecossistema cultural que preserva a memória coletiva e a identidade dos povos da floresta. Personagens como a Cunhã-Poranga, a guerreira de beleza estonteante; a Sinhazinha da Fazenda; o Amo do Boi com seus versos de improviso; e o místico Pajé conduzem o público por uma narrativa de resistência e celebração da vida amazônica. Ao final das três noites de espetáculo, quando o Bumbódromo silencia e o sol de segunda-feira nasce sobre o Rio Amazonas, Parintins reafirma que sua verdadeira magia não reside apenas nas vitórias alternadas entre o coração e a estrela, mas na capacidade de transformar lendas ancestrais em um canto coletivo de orgulho e esperança para o mundo ver.

Perguntas de compreensão

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Em que ano foram fundadas as agremiações Boi Garantido e Boi Caprichoso?