Sob o sol implacável do Pará, no km 95 da rodovia PA-150, um trecho de asfalto conhecido como “Curva do S” guarda a memória de um dos momentos mais definitivos da história agrária contemporânea. Era 17 de abril de 1996 quando mil e quinhentas famílias de trabalhadores rurais, ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), marchavam pacificamente em direção a Belém. Eles reivindicavam a expropriação da fazenda Macaxeira e o acesso fundamental à terra e ao alimento, mas foram interrompidos pela violência de duas tropas da Polícia Militar que, autorizadas a usar “a força necessária”, transformaram o protesto em uma tragédia de sangue e fumaça de gás lacrimogêneo.
Aquele dia não se encerrou com os tiros de fuzil e as agressões de instrumentos cortantes que ceifaram a vida de 19 trabalhadores no local — número que se multiplicaria em luto e resistência nos anos seguintes. Entre os mártires, o jovem Oziel Alves Pereira, de apenas 19 anos, eternizou sua coragem ao gritar “Viva o MST” sob a mira de armas, pouco antes de ser executado. O sacrifício desses homens e mulheres, cujas cicatrizes permanecem abertas na memória de sobreviventes como Maria Zelzuita de Araújo, hoje assentada no município de Eldorado do Carajás, transcendeu as fronteiras brasileiras. Em resposta ao horror, a organização internacional Vía Campesina declarou o 17 de abril como o Dia Internacional da Luta Camponesa, uma data que hoje une camponeses de todo o globo em uma jornada de solidariedade internacionalista e defesa da reforma agrária.
Nas décadas que se seguiram, a tragédia converteu-se em “mística”, o que os militantes chamam de “a alma do Movimento”. Essa mística não é apenas uma palavra, mas uma prática vivida em rituais carregados de simbolismo: bandeiras vermelhas, foices, facões, lonas negras e, acima de tudo, sementes e frutos que decoram os encontros e assembleias. É uma celebração que busca transformar a dor em confiança e a perda em renovação, utilizando a música, a poesia e o teatro para reafirmar a identidade de um povo que compreende a terra não como mercadoria, mas como um bem comum. Anualmente, o Acampamento Pedagógico para Jovens Sem Terra “Oziel Alves” reúne novas gerações na Curva do S para estudar a questão agrária, garantindo que a memória dos mártires permaneça viva como uma orientação política e pedagógica.
Essa luta se manifesta de forma vibrante na gastronomia e na produção de alimentos saudáveis. Em oposição ao modelo do agronegócio e do latifúndio, surge a Reforma Agrária Popular, que coloca a agroecologia e a soberania alimentar no centro da mesa. A semente é elevada à categoria de símbolo de resistência, um reservatório vivo de história e cultura que é trocado entre vizinhos e comunidades em redes de reciprocidade que desafiam a lógica do mercado. O eco de Eldorado ressoa em mercados camponeses, onde o contato direto entre produtores e consumidores promove um “preço justo” e alimentos livres de agrotóxicos, provando que o campesinato organizado é quem, de fato, alimenta as cidades com dignidade e saúde.
Ao caminhar hoje pelas terras conquistadas pelo suor e pela memória de Eldorado, percebe-se que cada safra colhida é um tributo àqueles que partiram. A luta camponesa contemporânea, inspirada no grito de 1996, é um projeto de vida que se opõe ao “projeto de morte” dos monocultivos industriais. É uma caminhada que busca, através do trabalho coletivo e da preservação da biodiversidade, construir uma sociedade onde nenhuma propriedade privada esteja acima da vida humana e onde o renascimento de cada planta no campo simbolize a esperança de um futuro soberano e justo para todos os povos da terra.