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Festas e tradições, Religiosidade

O Mar em Alvorada

Enquanto a luz ainda hesita em romper o horizonte de Salvador, o bairro do Rio Vermelho já pulsa em um estado de vigília e ensoñación. É madrugada de 2 de fevereiro, e o ar da Rua da Paciência parece carregado por uma eletricidade mística. Às 4h45 da manhã, o silêncio é cortado pelo espocar dos fogos de artifício que anunciam o início oficial da maior manifestação pública do candomblé na Bahia: o Dia de Iemanjá. Ver o sol nascer com os pés na areia, cercado pelo rufar dos atabaques da Umbanda e do Candomblé, é um convite à transcendência. Milhares de fiéis, unidos em uma “festa democrática” que apaga distinções de classe, vestem-se de branco e azul-claro — as cores da Rainha do Mar que simbolizam a paz, a pureza e as águas calmas.

A tradição, que hoje atrai multidões e é reconhecida como Patrimônio Imaterial, fincou suas raízes há pouco mais de um século, em 1923. Naquela época, quando a pescaria andava escassa e a fome rondava as famílias dos navegantes, um grupo de pescadores da região de Amaralina decidiu implorar por prosperidade à divindade iorubá cujo nome significa “Mãe cujos filhos são peixes”. O primeiro presente foi modesto, entregue dentro de uma caixa de sapatos contendo um espelho, uma boneca e um frasco de perfume. O milagre veio em forma de redes fartas e, com o tempo, o festejo cresceu e mudou-se para o Rio Vermelho, transformando a Casa de Iemanjá no Mercado do Peso no epicentro dessa devoção secular.

Ao longo de todo o dia, uma fila imensa serpenteia pelas ruas fechadas do bairro, onde o profano e o sagrado dançam em harmonia. Grupos de samba, percussão e capoeira cruzam o caminho de devotos que carregam balaios de vime repletos de oferendas. Dentro de cada cesta, o perfume da alfazema mistura-se ao odor das rosas e das ervas queimadas em cachimbos ritualísticos — este último, um “portal de conexão com o sagrado”. Mameto Laura Borges ensina que cada item tem sua alma: o perfume traz bons fluídos e brilho, enquanto o pente de madeira roga por equilíbrio e força para a cabeça. Há, porém, um novo olhar sobre o ritual; hoje, o “Presente Ecológico” privilegia flores e perfumes, evitando joias ou plásticos que agridam a “casa” da Orixá, pois, como se diz na fé, a mãe não fica alegre com sua morada suja.

Nas calçadas, o aroma do acarajé frito no azeite de dendê pelas baianas vestidas de rendas lembra que a gastronomia é parte indissociável dessa experiência sensorial. Enquanto Carlinhos Brown e seus percussionistas elevam a energia da orla, os pescadores, como o veterano Joel “Galo” Gouveia, preparam suas embarcações para o ápice da jornada. O movimento é constante até as 16h, quando o cortejo de barcos parte rumo ao alto-mar para entregar a oferenda principal. É um momento de silêncio e respeito, onde se recorda a mitologia da Rainha: Iemanjá, dona de rara beleza e apetites extravagantes, que por vezes encanta pescadores para seu leito líquido, devolvendo-os à areia sem vida, enquanto as esposas na praia imploram para que ela os deixe voltar vivos e com fartura.

Ao pôr do sol, quando os saveiros retornam após transformarem o oceano em um imenso colchão de flores, a sensação é de dever cumprido e Axé renovado. A festa, que sobreviveu à repressão histórica e até a uma pandemia recente, permanece como uma prova viva da resistência da cultura afro-brasileira. Quem deixa o Rio Vermelho naquela noite, sob o sol escaldante que pede chapéu e reverência, leva consigo não apenas o cheiro da maresia, mas a certeza de que, em Salvador, o mar não é apenas água, é a própria morada da fé.

Perguntas de compreensão

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Qual é o marco temporal oficial para o início da festa de Iemanjá no Rio Vermelho?